Teste de fezes para IBS-D: o que pode revelar?
Um teste de fezes para IBS-D não diagnostica diretamente a síndrome do intestino irritável com predominância de diarreia. O diagnóstico é clínico e baseia-se nos sintomas, na história da pessoa e, quando necessário, na exclusão de outras causas. As análises de fezes podem, contudo, ajudar a investigar infeções, inflamação e algumas alterações digestivas que podem causar sintomas semelhantes.
IBS-D é a sigla inglesa frequentemente usada para a forma da síndrome do intestino irritável em que predomina a diarreia. Em Portugal, também pode encontrar a designação SII-D. Este artigo explica o que os exames podem avaliar, como distinguir sinais compatíveis com IBS-D de sinais de alarme e o que fazer a seguir.
Existe um teste único para diagnosticar IBS-D?
Não. Não existe uma análise de fezes, exame de sangue ou outro teste isolado que confirme a IBS-D. O profissional de saúde considera a dor abdominal recorrente, as alterações do trânsito intestinal, a duração dos sintomas, os medicamentos, a alimentação, o historial clínico e os antecedentes familiares.
Os critérios de Roma IV são uma referência clínica comum. De forma geral, consideram dor abdominal recorrente, em média, pelo menos uma vez por semana nos últimos três meses, associada a pelo menos dois fatores: relação com a evacuação, alteração da frequência das fezes ou alteração da forma e consistência das fezes. Os sintomas devem ter começado pelo menos seis meses antes da avaliação. A aplicação destes critérios cabe a um profissional de saúde.
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O que pode causar diarreia semelhante à IBS-D?
A diarreia persistente pode ter várias causas. Entre as possibilidades estão infeções, doença inflamatória intestinal, doença celíaca, diarreia por ácidos biliares, efeitos de medicamentos, intolerâncias alimentares e, em situações selecionadas, insuficiência pancreática. A diarreia após uma infeção gastrointestinal também pode ser seguida por sintomas compatíveis com uma perturbação funcional, mas é necessária avaliação clínica.
Na IBS-D, a dor abdominal costuma estar relacionada com a evacuação e os sintomas podem variar com refeições, stress ou determinados alimentos. Isto não permite fazer um autodiagnóstico. A diarreia que ocorre durante a noite, sangue nas fezes, febre, perda de peso involuntária ou anemia merecem investigação médica.
Quais são os quatro tipos de IBS?
A síndrome do intestino irritável é classificada de acordo com o padrão predominante das fezes, normalmente usando a Escala de Bristol:
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- IBS-D ou SII-D: predomínio de fezes moles ou aquosas.
- IBS-C ou SII-C: predomínio de obstipação, com fezes duras ou grumosas.
- IBS-M ou SII-M: alternância entre diarreia e obstipação.
- IBS-U ou SII-U: padrão que não se enquadra claramente nas categorias anteriores.
O padrão pode mudar ao longo do tempo. Por isso, a classificação deve ser revista quando os sintomas se alteram.
Quais são os sete sintomas mais comuns de IBS?
Não existe uma lista oficial de apenas sete sintomas, mas os seguintes são frequentemente descritos:
- Dor ou desconforto abdominal recorrente.
- Diarreia, obstipação ou alternância entre ambas.
- Alteração da consistência das fezes.
- Alteração da frequência das evacuações.
- Distensão abdominal ou sensação de inchaço.
- Gases e flatulência.
- Sensação de evacuação incompleta ou presença de muco nas fezes.
A urgência para evacuar também é comum na IBS-D. Estes sintomas podem ocorrer noutras doenças e, por si só, não confirmam IBS-D.
Como os testes de fezes ajudam na investigação?
O tipo de exame deve ser escolhido de acordo com os sintomas e a avaliação clínica. Dependendo do caso, o médico pode considerar:
- Pesquisa de infeções: culturas, testes moleculares ou exame parasitológico podem ser usados quando existe suspeita de bactérias, vírus ou parasitas, incluindo após viagens, exposição a surtos ou consumo de água e alimentos contaminados.
- Calprotectina fecal: este marcador pode ajudar a identificar inflamação intestinal e a distinguir, em determinados contextos, uma doença inflamatória intestinal de uma perturbação funcional. Um resultado normal não exclui todas as doenças e um resultado elevado não estabelece um diagnóstico sozinho.
- Lactoferrina fecal: pode ser usada em alguns contextos como outro marcador de inflamação.
- Sangue oculto: um resultado positivo precisa de ser interpretado e investigado de acordo com a idade, os sintomas e outros fatores clínicos.
- Elastase fecal ou gordura fecal: podem ser considerados quando existem sinais de má digestão ou suspeita de insuficiência pancreática.
Estes exames procuram causas que podem imitar a IBS-D. Não devem ser pedidos ou interpretados de forma automática sem considerar o contexto da pessoa.
Que análises ao sangue podem ser consideradas?
Não há um marcador sanguíneo específico que esteja elevado na IBS. Dependendo da situação, a avaliação pode incluir hemograma, marcadores gerais de inflamação, testes para doença celíaca e outros exames orientados pelos sintomas. A função da tiroide ou outras análises podem ser avaliadas quando há uma razão clínica para tal.
Um hemograma pode mostrar anemia, por exemplo, enquanto marcadores inflamatórios elevados podem justificar investigação adicional. Estes resultados não confirmam nem excluem sozinhos a IBS-D. A interpretação deve ser feita por um profissional habilitado.
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Alguns testes comerciais analisam o material genético de microrganismos presentes nas fezes e apresentam dados sobre a composição relativa e a diversidade microbiana. O microbioma varia naturalmente entre pessoas e pode ser influenciado pela alimentação, medicamentos, antibióticos, sono, atividade física, stress e outros fatores.
Atualmente, um perfil de microbioma não deve ser tratado como um teste diagnóstico para IBS-D, nem existe uma pontuação universal que identifique um microbioma perfeito. Resultados como menor diversidade ou diferenças na abundância de determinados microrganismos podem ser associações, e não uma explicação comprovada para os sintomas de uma pessoa.
Se estiver a considerar uma análise de microbioma, confirme o que o painel mede, quais são as suas limitações e como os resultados serão acompanhados por um profissional. Pode consultar a informação da InnerBuddies sobre o teste de microbioma e orientação alimentar.
Como saber se a diarreia é de IBS-D?
Não é possível ter a certeza apenas pela aparência das fezes ou pela presença de diarreia. A IBS-D torna-se uma hipótese quando existe dor abdominal recorrente associada a alterações das evacuações, sem sinais que apontem para outra doença e após uma avaliação adequada.
Um diário durante algumas semanas pode ajudar a registar frequência e consistência das fezes, dor, urgência, refeições, medicamentos e outros fatores. Este registo não substitui uma consulta, mas pode tornar a conversa clínica mais objetiva. Diarreia persistente, progressiva ou acompanhada de sinais de alarme deve ser avaliada.
Com que idade é mais frequentemente diagnosticada?
A IBS pode começar em diferentes idades e não existe uma idade única que confirme ou exclua o diagnóstico. É frequentemente reconhecida em adultos jovens, mas também pode ser diagnosticada mais tarde. Quando os sintomas surgem pela primeira vez numa idade mais avançada, sobretudo com sinais de alarme, o médico pode recomendar uma investigação mais cuidadosa antes de atribuir os sintomas à IBS.
Como lidar com a diarreia enquanto aguarda avaliação?
As medidas seguintes são gerais e não substituem aconselhamento médico:
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- Hidrate-se: beba líquidos regularmente. Em episódios intensos, um profissional de saúde ou farmacêutico pode orientar sobre soluções de reidratação oral.
- Registe os sintomas: anote as evacuações, a consistência, a dor, os alimentos e os medicamentos.
- Evite restrições excessivas: eliminar muitos alimentos durante longos períodos pode dificultar uma alimentação equilibrada. Uma abordagem baixa em FODMAPs, quando indicada, deve ser temporária e acompanhada por um dietista ou nutricionista.
- Considere fibras solúveis: psyllium e outros alimentos ricos em fibra solúvel podem ser tolerados por algumas pessoas, mas devem ser introduzidos gradualmente e com líquidos adequados.
- Reveja medicamentos: alguns medicamentos e suplementos podem causar diarreia. Não suspenda tratamentos prescritos sem falar com o médico.
- Cuide do eixo intestino-cérebro: sono regular, atividade física adaptada e técnicas de redução do stress podem ajudar algumas pessoas a gerir os sintomas.
Antidiarreicos, antiespasmódicos, sequestrantes de ácidos biliares ou outros tratamentos só devem ser usados de acordo com aconselhamento clínico, especialmente se a causa da diarreia ainda não estiver esclarecida.
Quando procurar ajuda médica rapidamente?
Procure avaliação urgente ou contacte os serviços de saúde adequados se tiver:
- sangue visível nas fezes ou fezes negras;
- dor abdominal intensa, persistente ou diferente do habitual;
- febre persistente;
- vómitos repetidos ou incapacidade de manter líquidos;
- sinais de desidratação, como tonturas, boca muito seca ou urina escassa;
- perda de peso involuntária;
- diarreia que o acorda repetidamente durante a noite;
- anemia conhecida ou história familiar relevante de doença inflamatória intestinal ou cancro colorretal.
Mesmo sem estes sinais, marque consulta se a diarreia persistir, piorar ou interferir significativamente com a vida diária.
Como é feita a recolha de uma amostra?
Num teste de fezes, a amostra é normalmente recolhida em casa com um recipiente ou kit próprio. É importante seguir as instruções do laboratório sobre higiene, quantidade, conservação, identificação e envio. Não misture a amostra com urina ou água da sanita. Informe o profissional sobre antibióticos, probióticos, medicamentos e viagens recentes, pois alguns fatores podem influenciar determinados resultados.
O período adequado para evitar ou suspender algum produto varia e nunca deve ser decidido sem orientação, sobretudo no caso de medicamentos prescritos.
Como interpretar os resultados sem conclusões precipitadas?
Um resultado alterado não significa automaticamente IBS-D, infeção ativa ou doença inflamatória. Da mesma forma, resultados dentro dos intervalos de referência não invalidam os sintomas. O significado depende do método usado pelo laboratório, dos intervalos de referência, da qualidade da amostra e do quadro clínico.
Os relatórios de microbioma podem ser úteis para educação e acompanhamento, mas não devem determinar sozinhos uma dieta restritiva, um suplemento ou um probiótico. A evolução dos sintomas, a segurança e a qualidade de vida são mais importantes do que tentar atingir um perfil microbiano ideal.
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Um teste de fezes substitui uma colonoscopia?
Não. A colonoscopia pode ser indicada perante sinais de alarme, resultados anormais, idade de rastreio ou outras razões clínicas. Um teste de fezes é complementar e não substitui exames recomendados pelo médico.
Um teste de fezes deteta SIBO?
Não diretamente. O crescimento excessivo de bactérias no intestino delgado é geralmente investigado com testes respiratórios específicos, quando apropriado. Um teste fecal não deve ser usado para confirmar SIBO.
Os probióticos funcionam para todas as pessoas com IBS-D?
Não. A resposta pode variar conforme a estirpe, a dose, a duração e a pessoa. Se considerar um probiótico, procure orientação sobre a evidência disponível e interrompa a experiência se houver agravamento ou efeitos indesejáveis, comunicando-o a um profissional de saúde.
Devo repetir um teste de microbioma?
Não existe uma frequência universal. A repetição só deve ter um objetivo claro, como acompanhar uma mudança relevante, e deve ser interpretada com cautela. Testar frequentemente pode acrescentar pouco valor e gerar preocupação desnecessária.
O que fazer depois dos resultados?
Reveja o relatório com um profissional de saúde. Se houver um resultado que sugira infeção ou inflamação, pode ser necessária investigação ou tratamento específico. Se a avaliação não identificar uma causa orgânica, o plano pode focar a gestão dos sintomas, a alimentação equilibrada, a atividade física, o sono e estratégias dirigidas ao eixo intestino-cérebro.
Conclusão
O teste de fezes para IBS-D é uma ferramenta de investigação, não um teste de confirmação da síndrome do intestino irritável. Pode ajudar a procurar infeções, inflamação e outras causas de diarreia, enquanto o diagnóstico depende sobretudo da avaliação clínica. Os testes de microbioma podem oferecer informação descritiva, mas os seus resultados precisam de contexto e não substituem cuidados médicos. Perante sintomas persistentes ou sinais de alarme, procure avaliação profissional.