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A SII Pode Causar ALT Elevada? O Que a Investigação Realmente Mostra

A SII pode causar ALT elevada? Os estudos mostram uma associação entre a síndrome do intestino irritável e as transaminases mais altas, mas não uma relação direta de causa e efeito. Este guia explica o que a investigação revela, o papel do fígado gordo e do eixo intestino-fígado, que outras causas devem ser excluídas, que sinais de alerta exigem atenção urgente e o que esperar da consulta de gastroenterologia.
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A SII pode causar ALT elevada? Existe uma associação documentada: um estudo transversal de grande dimensão detetou ALT elevada em cerca de 16,9% das pessoas com síndrome do intestino irritável, contra aproximadamente 7,7% das que não tinham a síndrome. Contudo, a SII não é considerada uma causa direta de lesão hepática — a ligação mais provável passa pelo fígado gordo, pelos fatores metabólicos e pelo eixo intestino-fígado. Este guia explica o que isso significa na prática, que causas devem ser excluídas primeiro e quando consultar um médico.

Resposta rápida: a SII pode causar ALT elevada?

Na grande maioria dos casos, a síndrome do intestino irritável não danifica diretamente o fígado nem provoca, por si, elevação da ALT. Ainda assim, a associação é real: no estudo referido, as transaminases elevadas surgiam mais do dobro das vezes em pessoas com SII. A diferença sugere fatores partilhados — excesso de peso, resistência à insulina, disbiose intestinal e inflamação de baixo grau — que afetam simultaneamente o intestino e o fígado, sobretudo através do fígado gordo. Associação, porém, não é causa: na prática, perante uma ALT elevada em alguém com SII, os médicos procuram primeiro causas de ALT elevada mais comuns e muitas vezes reversíveis — fígado gordo não alcoólico, álcool, medicamentos, suplementos, hepatites virais, alterações da tiroide ou doença celíaca.

O que é a ALT e quando é considerada elevada?

A ALT (alanina aminotransferase), também designada SGPT, é uma enzima concentrada sobretudo nas células do fígado. Quando estas ficam inflamadas ou lesadas, parte da enzima passa para o sangue, razão pela qual a ALT é um dos marcadores mais específicos de irritação hepática nas provas de função hepática. Um valor elevado é um sinal que merece investigação — não é, por si só, um diagnóstico.

Valores normais de ALT e como interpretar as suas análises

Os intervalos de referência variam entre laboratórios, métodos e sexos. Em termos gerais, considera-se habitualmente normal uma ALT inferior a cerca de 40 unidades por litro (U/L) nos homens e a 30-35 U/L nas mulheres, mas o intervalo impresso no seu relatório é sempre a referência a utilizar. Elevações ligeiras e isoladas são relativamente comuns na população geral e, muitas vezes, transitórias.

ALT, AST e GGT: o que cada enzima revela

Cada enzima conta uma história diferente, e é o padrão conjunto que orienta a investigação:


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  • ALT: a mais específica do fígado; aumenta sobretudo quando há inflamação ou lesão das células hepáticas.
  • AST (aspartato aminotransferase): existe também no músculo e no coração; um rácio AST/ALT elevado pode sugerir origem alcoólica ou muscular.
  • GGT: sensível ao álcool e às doenças das vias biliares; elevada em conjunto com a fosfatase alcalina, levanta a hipótese de colestase.

Elevação ligeira ou acentuada: porque é que a diferença importa

Os médicos classificam a elevação pela magnitude em relação ao limite superior do normal: ligeira (até 2 a 3 vezes esse limite), moderada (3 a 5 vezes) ou acentuada (mais de 5 vezes). Elevações ligeiras, isoladas e sem sintomas são frequentemente transitórias e resolvem-se com a repetição das análises; elevações acentuadas, ou acompanhadas de sintomas, justificam avaliação médica em prazo curto.

O que diz a investigação sobre a SII e as transaminases elevadas

Prevalência de ALT elevada em pessoas com SII

No estudo transversal já mencionado, cerca de 16,9% das pessoas com SII tinham ALT elevada, face a 7,7% dos que não tinham a síndrome. Outros estudos, com populações e critérios diferentes, encontraram também prevalências superiores de fígado gordo em pessoas com sintomas compatíveis com SII, embora nem todos tenham confirmado a associação. Importa sublinhar: mesmo com um risco relativo mais elevado, a maioria das pessoas com SII tem provas de função hepática normais, e o risco absoluto de doença hepática grave continua a ser baixo. Os valores servem para orientar a vigilância clínica, não para prever o resultado de qualquer pessoa em particular.

Associação não é causalidade: limitações dos estudos

A maior parte destes estudos é transversal: mede tudo ao mesmo tempo, sem acompanhar as pessoas ao longo dos anos. Por isso, não mostram se a SII precede a elevação da ALT, se o fígado gordo contribui para os sintomas intestinais ou se ambos partilham apenas causas comuns, como excesso de peso, resistência à insulina e hábitos alimentares. Acrescem fatores de confusão raramente totalmente controlados — álcool, medicamentos, idade e peso —, diagnósticos de SII baseados em questionários e medições pontuais da enzima. Os próprios investigadores sublinham que se trata de associação e que são necessários estudos longitudinais.

Como o eixo intestino-fígado liga a SII às enzimas hepáticas

Intestino e fígado comunicam em permanência através da veia porta, dos ácidos biliares e dos metabolitos produzidos pelos micróbios intestinais. Propõe-se que a disbiose e um aumento da permeabilidade intestinal permitam que produtos bacterianos, como os lipopolissacarídeos, cheguem ao fígado em maior quantidade, favorecendo inflamação de baixo grau e resistência à insulina. É este circuito — o eixo intestino-fígado — que ajuda a explicar porque é que a saúde intestinal e as enzimas hepáticas podem surgir alteradas em simultâneo. A maior parte da evidência provém de estudos em animais e de investigação preliminar, pelo que continua a ser uma hipótese em estudo.


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SIBO, disbiose e má absorção

Parte das pessoas com SII apresenta crescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO) ou padrões de disbiose, e alguns estudos observacionais descrevem o SIBO com mais frequência em pessoas com fígado gordo, sobretudo nos casos mais avançados. Os mecanismos propostos incluem alterações da motilidade, da produção de ácidos biliares e da absorção de nutrientes. Não está claro, contudo, quem surge primeiro — e a má absorção por outras causas, como a doença celíaca, também pode alterar as análises hepáticas.

O papel do stress crónico e do cortisol

Outra via proposta envolve o stress: viver com sintomas intestinais crónicos mantém o eixo intestino-cérebro em alerta, e o cortisol persistentemente elevado pode contribuir para inflamação de baixo grau, resistência à insulina e acumulação de gordura no fígado, segundo modelos propostos na investigação. Trata-se de uma hipótese em estudo — não há prova de que o stress, por si, cause lesão hepática —, mas reforça a importância do sono, da gestão do stress e do apoio psicológico quando indicado, medidas com benefício documentado na própria SII.

SII e fígado gordo: a sobreposição que explica a maioria dos casos

A explicação mais consistente para a ALT elevada em pessoas com SII é a sobreposição com a esteatose hepática não alcoólica — o fígado gordo —, a causa mais frequente de elevação ligeira da ALT nos países ocidentais. Consiste na acumulação de gordura nas células do fígado sem consumo significativo de álcool e associa-se a excesso de peso, sobretudo gordura visceral, resistência à insulina, tensão arterial elevada e alterações do colesterol — o conjunto designado síndrome metabólica. Uma maior prevalência de fígado gordo em alguns grupos com SII explicaria grande parte das transaminases elevadas neste contexto.

Quando a ALT elevada pede uma avaliação do fígado gordo

Se tem SII e ALT elevada, merecem especial atenção fatores como excesso de peso ou perímetro abdominal aumentado, diabetes ou pré-diabetes, colesterol ou tensão arterial alterados, e antecedentes familiares de doença hepática. Nestes casos, os médicos têm frequentemente em primeiro plano o fígado gordo e solicitam, conforme o contexto, análises metabólicas e uma ecografia abdominal para confirmar ou excluir a hipótese.

O impacto das dietas dirigidas ao intestino

As próprias estratégias alimentares usadas na SII podem ter reflexos metabólicos. Uma dieta pobre em FODMAP mantida durante muito tempo e sem acompanhamento pode reduzir o consumo de cereais integrais, leguminosas e algumas frutas, enquanto produtos processados, por vezes ricos em gordura e açúcar, ocupam o seu lugar. Este cenário é teórico e varia muito entre pessoas, mas sublinha a importância de fazer a restrição com apoio profissional e de proceder à reintrodução planeada dos alimentos.

Outras causas de enzimas hepáticas elevadas a excluir primeiro

Perante uma ALT elevada, há um conjunto de causas mais frequentes que a avaliação médica procura excluir antes de atribuir o resultado à SII ou ao fígado gordo.

Álcool, medicamentos e suplementos

O álcool, mesmo em quantidades moderadas, é uma causa frequente de elevação da AST e da GGT. Nos medicamentos destacam-se o paracetamol em doses elevadas ou prolongadas, alguns antibióticos e anti-inflamatórios; nos suplementos, os extratos concentrados de chá verde e várias misturas de plantas já foram implicados em lesão hepática. «Natural» não significa automaticamente seguro: leve à consulta a lista completa do que toma e nunca suspenda medicamentos prescritos por sua conta.

Hepatites virais e outras doenças do fígado

As hepatites virais A, B e C, a hepatite autoimune, a hemocromatose (excesso de ferro) e as doenças das vias biliares são causas clássicas de transaminases elevadas e são habitualmente pesquisadas na avaliação inicial. O padrão das enzimas orienta: predomínio de ALT e AST aponta para lesão das células hepáticas, enquanto GGT e fosfatase alcalina em destaque sugerem problemas no fluxo biliar.

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Tiroide, doença celíaca e lesão muscular

O hipotiroidismo e o hipertiroidismo podem elevar as transaminases, e a doença celíaca — que com frequência imita sintomas de SII — é uma causa conhecida de elevação ligeira das enzimas hepáticas, razão pela qual o rastreio com anticorpos anti-transglutaminase é comum nestas situações. Por fim, o exercício muito intenso nas 24 a 48 horas anteriores à colheita pode aumentar a AST e a ALT por libertação a partir do músculo; uma análise da creatinoquinase (CK) ajuda a distinguir esta situação.

A ALT pode estar falsamente elevada?

Chama-se «falsa elevação» a um resultado que não reflete doença do fígado. Exercício intenso nos dias anteriores, lesões musculares, alguns medicamentos, infeções recentes, problemas na colheita ou no transporte da amostra (como hemólise) e variações entre laboratórios podem todos distorcer o resultado. Quando a elevação é ligeira e não há sintomas nem sinais de alerta, a conduta habitual é repetir as provas de função hepática entre quatro e oito semanas depois, conforme orientação médica, evitando álcool e esforços exaustivos nesse intervalo; se a elevação persistir, inicia-se a investigação dirigida.

Sintomas digestivos, fezes e sinais de alerta

A ALT elevada causa diarreia? E as fezes no fígado gordo?

A ALT é um marcador laboratorial e não produz sintomas por si: elevações ligeiras ou moderadas são, em regra, silenciosas. Quando existem queixas digestivas — diarreia, distensão, dor —, as explicações mais prováveis são outras: a própria SII, infeções, efeitos de medicamentos, doença celíaca, diarreia por ácidos biliares ou problemas pancreáticos. No fígado gordo simples, muitas pessoas não sentem nada; fadiga e desconforto na parte superior direita do abdómen podem ocorrer, mas são inespecíficos. Quanto às fezes, a esteatose hepática simples não produz um padrão característico: alterações visíveis — fezes claras ou acinzentadas, oleosas, que flutuam e são difíceis de evacuar — apontam antes para problemas no fluxo biliar, no pâncreas ou na absorção, e merecem avaliação médica. Em quem tem SII, a variação dos hábitos intestinais deve-se, na maioria dos casos, à própria síndrome, e não ao fígado.

Sinais de alerta que exigem atenção urgente

A maioria das elevações ligeiras não é urgente, mas os sinais seguintes podem indicar lesão hepática significativa e justificam avaliação médica no próprio dia:

  • Icterícia: coloração amarela da pele ou da parte branca dos olhos.
  • Urina persistentemente escura, sem explicação óbvia.
  • Fezes claras ou acinzentadas.
  • Dor intensa ou súbita na parte superior direita do abdómen.
  • Febre com calafrios associada a sintomas hepáticos.
  • Confusão mental, sonolência invulgar ou comportamento alterado.
  • Vómitos com sangue ou fezes pretas e alcatroadas.
  • Inchaço do abdómen ou das pernas, hemorragias ou hematomas fáceis.
  • ALT acentuadamente elevada — por exemplo, mais de cinco a dez vezes o limite superior — mesmo sem sintomas.

Quando consultar um gastroenterologista

Quando a elevação persiste na repetição das análises, ou há sintomas persistentes, inexplicados ou que pioram, o passo seguinte é a avaliação por gastroenterologia. Em regra, o médico repete as provas de função hepática e recolhe uma história detalhada: álcool, todos os medicamentos e suplementos, doenças associadas e antecedentes familiares. A avaliação inclui peso, índice de massa corporal, perímetro da cintura e tensão arterial, além de análises metabólicas — glicemia ou hemoglobina glicada e perfil lipídico —, porque o risco hepático e o risco cardiometabólico andam frequentemente juntos.

Ecografia e FibroScan: como é avaliado o fígado

A ecografia abdominal é normalmente o primeiro exame de imagem: permite detetar gordura no fígado, avaliar o tamanho dos órgãos e identificar outras alterações. Quando é preciso quantificar a gordura e sobretudo a rigidez do fígado — indício de fibrose —, pode ser pedido um FibroScan, uma elastografia rápida e não invasiva. Em alguns casos, o médico calcula ainda índices a partir de análises simples e da idade, como o FIB-4, para hierarquizar o risco.

Análises dirigidas: hepatites, autoimunidade, celíaca e tiroide

Conforme o contexto, podem ser pedidas serologias para as hepatites B e C, estudos do ferro e da ferritina, autoanticorpos, anticorpos de doença celíaca e hormonas da tiroide. Esta abordagem é seletiva e destina-se a excluir as causas tratáveis antes de atribuir a elevação a fatores metabólicos ou intestinais.

Perguntas úteis para levar à consulta

Antes da consulta, reúna os resultados de análises anteriores, a lista completa de medicamentos e suplementos, uma estimativa honesta do consumo de álcool, a evolução do peso e um diário breve dos sintomas intestinais. Levar perguntas escritas ajuda a aproveitar o tempo:

  1. Qual é a causa mais provável no meu caso?
  2. Devo repetir as análises? Em que prazo?
  3. Faz sentido fazer uma ecografia ou um FibroScan agora?
  4. Algum dos meus medicamentos ou suplementos pode estar implicado?
  5. Como concilio a alimentação da SII com a saúde do fígado?
  6. Que sinais de alerta devem levar-me a contactar mais depressa?

A SII pode provocar lesão do fígado ou cirrose?

Não há evidência de que a SII, por si, lesione o fígado ou evolua para cirrose. A cirrose resulta de causas crónicas identificadas — hepatites virais, álcool, doenças autoimunes ou genéticas e, em parte dos casos, inflamação mantida do fígado gordo. Para quem tem SII e ALT elevada, a mensagem realista é de calma fundamentada: o objetivo da avaliação é encontrar a causa — frequentemente o fígado gordo — numa fase em que, na maioria das pessoas, as alterações podem melhorar de forma significativa com as medidas adequadas.


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Alimentação e estilo de vida com SII e fígado gordo

Conciliar a dieta mediterrânica com a dieta pobre em FODMAP

Para o fígado gordo, o padrão alimentar com mais evidência é a dieta mediterrânica: hortícolas, fruta, leguminosas, cereais integrais, azeite, peixe e frutos secos, com pouca carne vermelha e poucos produtos processados. Para a SII, a dieta pobre em FODMAP pode reduzir sintomas, mas foi concebida como ferramenta de curto prazo, em fases — não como regime definitivo. Na prática, a solução habitual passa por fazer a fase de restrição com acompanhamento de nutricionista e construir, a partir da reintrodução planeada, uma versão mediterrânica em torno dos alimentos que cada pessoa tolera. Dois cuidados facilitam esta conciliação: aumentar a fibra gradualmente, porque aumentos bruscos pioram os sintomas em muitas pessoas com intestino sensível, e evitar que os produtos «sem FODMAP» processados se tornem a base alimentar. Hidratação adequada e refeições regulares completam o quadro.

Peso, exercício físico e resistência à insulina

Na esteatose hepática, a perda de peso é a medida com evidência mais sólida: reduções na ordem de 7 a 10% do peso associam-se, nos estudos, a menos gordura hepática e a melhorias nas enzimas, e mesmo perdas menores trazem benefício. A perda deve ser gradual — emagrecimentos muito rápidos podem, em alguns casos, agravar o quadro. A atividade física regular, combinando exercício aeróbio e de força, melhora a sensibilidade à insulina mesmo sem grande perda de peso, com benefícios documentados para o intestino, o humor e o sono.

Suplementos e produtos de desintoxicação: precauções

Os produtos de desintoxicação não têm evidência de benefício para o fígado e alguns podem fazer mal. Suplementos como o cardo-mariano têm estudos com resultados mistos, a segurança varia entre produtos e podem existir interações com medicamentos. Com análises hepáticas alteradas, a regra prudente é simples: não iniciar suplementos sem conversar com o médico, evitar misturas de plantas e extratos concentrados — alguns já foram associados a lesão hepática — e não contar com promessas de limpeza do fígado.

O microbioma intestinal: o que pode (e não pode) esclarecer

Duas pessoas com SII podem ter mecanismos diferentes por detrás de sintomas semelhantes, e uma elevação idêntica da ALT pode refletir fígado gordo numa pessoa e um suplemento noutra. Nenhum sintoma isolado identifica uma causa única, e nenhum biomarcador — a ALT incluída — explica sozinho um quadro clínico complexo: sintomas e análises servem para levantar hipóteses, e confirmá-las exige história clínica, exame objetivo, valores anteriores e, quando indicado, exames de imagem.

Uma análise ao microbioma fecal descreve a composição da microbiota intestinal: os microrganismos detetados, a sua abundância relativa e medidas de diversidade. Para quem quer conhecer melhor o seu ecossistema intestinal, um teste ao microbioma intestinal pode acrescentar contexto educativo. Os limites são igualmente importantes: a amostra de fezes é um retrato parcial e pontual, os métodos e os intervalos de referência variam entre laboratórios, e o resultado é influenciado pela dieta, por medicamentos — sobretudo antibióticos — e por doenças recentes. Associação não equivale a causalidade, e um resultado deste tipo é informação de apoio, não um diagnóstico e não substitui a avaliação médica.

Próximos passos: o que fazer depois de uma ALT elevada

O primeiro passo é calibrar a resposta ao resultado. Uma ALT ligeiramente elevada, sem sintomas nem sinais de alerta, permite normalmente repetir as análises em algumas semanas, revendo entretanto álcool, medicamentos e suplementos com o médico. Uma elevação acentuada, ou sintomas como icterícia e dor intensa, justifica avaliação mais rápida, sem esperar. Estes passos não substituem o parecer clínico: servem para chegar à consulta com informação útil e reduzir a ansiedade de quem espera por respostas.

Principais conclusões

  • A SII não é considerada uma causa direta de ALT elevada; os estudos mostram uma associação, não uma relação de causa e efeito.
  • Num estudo transversal, existia ALT elevada em 16,9% das pessoas com SII, contra 7,7% dos participantes sem SII.
  • O fígado gordo não alcoólico, os fatores metabólicos e o eixo intestino-fígado são a explicação mais consistente para elevações ligeiras da ALT.
  • Álcool, medicamentos, suplementos, hepatites virais, doença celíaca e alterações da tiroide devem ser excluídos primeiro.
  • Uma ALT ligeiramente elevada e sem sintomas é frequentemente transitória; repetir as análises algumas semanas depois é conduta habitual.
  • Icterícia, urina escura, dor intensa ou confusão mental exigem atenção médica urgente.

Perguntas frequentes

A síndrome do intestino irritável pode causar enzimas hepáticas elevadas?

Não é considerada uma causa direta, mas estudos observacionais detetaram enzimas hepáticas elevadas com mais frequência em pessoas com SII — cerca de 16,9% contra 7,7% num estudo transversal. A explicação mais provável passa por fatores partilhados, como o fígado gordo, as alterações metabólicas e o eixo intestino-fígado. Associação não significa causalidade.

Que condições causam enzimas hepáticas elevadas?

As causas mais frequentes são o fígado gordo não alcoólico, o álcool, medicamentos e suplementos, as hepatites virais, as doenças autoimunes, a hemocromatose, as doenças das vias biliares, as alterações da tiroide, a doença celíaca e a lesão muscular — incluindo o exercício intenso antes da colheita. Identificar a causa exige avaliação médica, porque o padrão das enzimas e o contexto clínico orientam a investigação.

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Os problemas de fígado afetam o intestino?

Podem afetar. Intestino e fígado comunicam através da veia porta e dos ácidos biliares, e doenças biliares ou a cirrose podem alterar a digestão das gorduras e o funcionamento intestinal, com diarreia ou fezes gordurosas. Já o fígado gordo simples raramente causa sintomas intestinais; em quem tem SII, as queixas digestivas devem-se, na maioria dos casos, à própria síndrome.

Qual é o órgão mais afetado pela SII?

A SII é um distúrbio funcional do intestino, sobretudo do intestino grosso (cólon): é ali que surgem dor, distensão e alterações do hábito intestinal. Não é uma doença que lesione órgãos — os exames de imagem e as análises são tipicamente normais —, mas os sintomas resultam de interações entre o intestino, o cérebro, a dieta e a microbiota intestinal.

O que faz o gastroenterologista perante enzimas hepáticas elevadas?

Habitualmente repete as provas de função hepática, faz uma história detalhada de álcool, medicamentos e suplementos e avalia o risco metabólico. Depois pede, conforme o caso, ecografia abdominal, FibroScan e análises dirigidas: hepatites virais, ferro, autoimunidade, doença celíaca e tiroide. O objetivo é identificar a causa tratável e definir a vigilância.

O que pode causar uma ALT falsamente elevada?

Exercício intenso nos dias anteriores, lesões musculares, alguns medicamentos, infeções recentes e problemas na colheita ou no transporte da amostra podem distorcer o resultado, tal como as diferenças entre laboratórios. Por isso, uma elevação ligeira e sem sintomas é frequentemente reavaliada com novas análises após algumas semanas.

Quanto tempo demora a ALT a voltar ao normal?

Depende da causa. Quando a elevação resulta de álcool, medicamentos ou esforço físico intenso, os valores podem baixar nas semanas seguintes à remoção do fator. No fígado gordo, a melhoria acompanha a perda de peso e as alterações metabólicas, habitualmente ao longo de meses. O ritmo varia entre pessoas e deve ser interpretado pelo médico.

Preciso de um teste ao microbioma se tenho SII e ALT elevada?

Não é um exame de rotina nesta situação: a avaliação clínica, as análises e a ecografia têm prioridade. Um teste ao microbioma intestinal pode oferecer contexto educativo sobre a composição da microbiota, mas não diagnostica SII, fígado gordo nem a causa de uma ALT elevada. Discuta com o seu médico se faz sentido no seu caso.

Conclusão

Uma ALT elevada em quem tem SII é um sinal que merece investigação, não um motivo para alarme. A investigação sugere uma associação — provavelmente mediada pelo fígado gordo, pelos fatores metabólicos e pelo eixo intestino-fígado —, mas não demonstra que a síndrome do intestino irritável cause lesão hepática. Na maioria dos casos, estão em jogo causas comuns, identificáveis e modificáveis, que a avaliação médica consegue esclarecer. Para quem quer conhecer melhor o seu ecossistema intestinal, uma análise à microbiota intestinal pode ser uma fonte adicional de informação educativa — sempre como complemento, e nunca como substituto da avaliação e do acompanhamento por profissionais de saúde.

Este artigo tem caráter educativo e baseia-se em estudos publicados sobre a associação entre SII e transaminases; não substitui aconselhamento, diagnóstico ou tratamento médico.

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