Diagnóstico da SII: Critérios de Roma IV Passo a Passo
Os médicos diagnosticam a síndrome do intestino irritável (SII) sobretudo através dos critérios de Roma IV, o padrão-ouro atual: dor abdominal recorrente pelo menos um dia por semana, associada a alterações na defecação ou nas fezes, com sintomas presentes há pelo menos seis meses. Não existe um exame único que confirme a SII — o diagnóstico é clínico e inclui a exclusão de sinais de alarme e de outras condições. Neste artigo explicamos os critérios passo a passo, os subtipos de SII segundo a Escala de Bristol, os exames usados no diagnóstico diferencial e as diferenças entre Roma III, Roma IV e Roma V.
Qual é o padrão-ouro para diagnosticar a SII?
O padrão-ouro para o diagnóstico da SII é a aplicação dos critérios de Roma IV combinada com uma avaliação clínica completa. Não existe análise ao sangue, imagem ou outro exame que, por si só, confirme a SII: trata-se de um diagnóstico essencialmente clínico. Quando os sintomas cumprem os critérios de Roma IV e não há sinais de alarme, o médico pode estabelecer o diagnóstico com elevada segurança, sem necessidade de testes adicionais.
Quais são os critérios de Roma IV?
De acordo com a Rome Foundation, os critérios de Roma IV para a SII são os seguintes:
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- Dor abdominal recorrente – em média, pelo menos 1 dia por semana nos últimos 3 meses.
- Associada a dois ou mais dos seguintes fatores:
- Relação com a defecação (a dor melhora ou piora após evacuar).
- Alteração na frequência das fezes (diarreia ou obstipação).
- Alteração na forma ou consistência das fezes (fezes muito líquidas ou muito duras).
- Antiguidade – os sintomas devem ter começado há pelo menos 6 meses.
Escala de Bristol e subtipos de SII
Para classificar o subtipo, o médico avalia a forma das fezes com a Escala de Bristol, que descreve 7 tipos: os tipos 1 e 2 correspondem a fezes duras e fragmentadas (associadas à obstipação), os tipos 3 e 4 a fezes de consistência normal e os tipos 5 a 7 a fezes cada vez mais moles ou líquidas (associadas à diarreia).
- SII com obstipação (SII-C): pelo menos 25% das fezes do tipo 1–2 e menos de 25% do tipo 6–7.
- SII com diarreia (SII-D): pelo menos 25% das fezes do tipo 6–7 e menos de 25% do tipo 1–2.
- SII mista (SII-M): pelo menos 25% das fezes do tipo 1–2 e pelo menos 25% do tipo 6–7.
- SII não classificada (SII-U): quando não existe um padrão dominante de alteração da consistência das fezes.
Passo a passo do diagnóstico da SII
O processo diagnóstico segue uma sequência lógica:
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- História clínica detalhada: o médico pergunta sobre os sintomas, a sua duração, frequência, relação com a defecação, alimentação e stress, além do historial pessoal e familiar de doenças gastrointestinais.
- Exame físico: a palpação abdominal pode revelar zonas de dor ou distensão e ajuda a descartar outros problemas.
- Caracterização dos sintomas: aplicam-se os critérios de Roma IV e regista-se o padrão das fezes segundo a Escala de Bristol.
- Exclusão de sinais de alarme: identificam-se sinais que exigem investigação mais aprofundada (ver secção seguinte).
- Exames complementares, se necessário: pedidos sobretudo quando há sinais de alarme, para excluir outras doenças.
Sinais de alarme que exigem mais investigação
Informe o médico se apresentar qualquer um destes sinais de alarme, pois podem indicar outra condição e requerem exames adicionais, como a colonoscopia:
- Início dos sintomas após os 50 anos.
- Perda de peso involuntária e significativa.
- Sangue visível nas fezes ou fezes escuras (melena).
- Febre persistente.
- Anemia (cansaço extremo, palidez).
- Sintomas noturnos que acordam o doente.
- Vómitos repetidos.
- História familiar de cancro colorretal, doença inflamatória intestinal ou doença celíaca.
O que é frequentemente confundido com a SII?
Algumas condições têm sintomas semelhantes aos da SII e são por isso consideradas no diagnóstico diferencial. As mais comuns incluem:
- Doença inflamatória intestinal (doença de Crohn e colite ulcerosa) – avaliada através da calprotectina fecal e, se necessário, de endoscopia.
- Doença celíaca – detetada com serologia no sangue, confirmada conforme orientação médica.
- Diarreia por excesso de ácidos biliares – causa frequente de diarreia crónica que pode ser confundida com a SII-D.
- Endometriose – pode causar dor abdominal e alterações do trânsito intestinal, sobretudo em mulheres, podendo exigir avaliação ginecológica.
- Alterações da tiróide e intolerâncias alimentares – avaliadas com análises e história alimentar.
Exames para excluir outras condições
Embora o diagnóstico da SII seja clínico, o médico pode pedir exames direcionados para afastar patologias com sintomas sobreponíveis:
- Análises sanguíneas: hemograma (para verificar anemia) e proteína C reativa (PCR), um marcador de inflamação.
- Calprotectina fecal: valores normais apoiam a hipótese de SII; valores elevados sugerem inflamação intestinal e levantam a suspeita de doença inflamatória intestinal.
- Serologia para doença celíaca: análise ao sangue para detetar anticorpos.
- TSH: avaliação da função tiroideia, que pode afetar o trânsito intestinal.
A colonoscopia é reservada para situações com sinais de alarme, como sangue nas fezes, perda de peso inexplicada, história familiar de cancro colorretal ou início dos sintomas após os 50 anos.
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O diagnóstico da SII foi refinado por sucessivas versões dos critérios de Roma:
- Critérios de Manning (1978): os pioneiros, baseados em sintomas como alívio da dor após evacuar, fezes mais líquidas no início da dor, distensão abdominal e muco nas fezes.
- Critérios de Roma III: exigiam dor ou desconforto abdominal em pelo menos 3 dias por mês nos últimos 3 meses.
- Critérios de Roma IV (atuais): mais rigorosos, exigem dor abdominal em pelo menos 1 dia por semana, retiraram o termo «desconforto» e valorizam a relação dos sintomas com a defecação e com a forma das fezes.
Quanto aos critérios de Roma V: a Rome Foundation está a preparar a próxima revisão, mas esta ainda não foi publicada. Enquanto não for oficialmente divulgada e adotada, os critérios de Roma IV mantêm-se como a referência clínica utilizada pelos médicos, incluindo em Portugal.
Quais são os 7 sintomas mais comuns da SII?
Os sintomas variam de pessoa para pessoa, mas os mais relatados são:
- Dor ou desconforto abdominal que alivia após a defecação.
- Alteração do ritmo intestinal, com períodos de diarreia (SII-D) ou obstipação (SII-C).
- Inchaço ou distensão abdominal.
- Gases excessivos.
- Sensação de urgência para evacuar.
- Sensação de evacuação incompleta.
- Presença de muco nas fezes.
Nota: esta lista é informativa e não substitui uma avaliação médica. Se apresenta estes sintomas, consulte o seu médico.
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Que alimentos podem desencadear sintomas?
A dieta influencia os sintomas da SII, embora os desencadeantes sejam individuais. Os mais referidos são os alimentos ricos em FODMAPs (trigo, cebola, alho, leguminosas e algumas frutas), os lacticínios em caso de intolerância à lactose, os alimentos gordurosos ou fritos, as bebidas com cafeína, o álcool e os pratos picantes. Um registo alimentar pode ajudar a identificar os seus gatilhos, idealmente com apoio de um nutricionista.
O papel do microbioma intestinal no diagnóstico
É importante esclarecer que a análise do microbioma intestinal não é usada para diagnosticar a SII. O diagnóstico continua a basear-se nos critérios de Roma IV. Contudo, quando os sintomas persistem apesar do tratamento padrão, compreender o perfil do microbioma pode fornecer informação complementar: um teste de microbioma intestinal pode identificar desequilíbrios (disbiose) associados a gases, inchaço e alterações do trânsito intestinal. Esta informação pode apoiar estratégias nutricionais personalizadas, sempre em articulação com o seu médico ou nutricionista.
Perguntas frequentes sobre o diagnóstico da SII
A SII melhora alguma vez?
Sim. Embora seja uma condição crónica, muitas pessoas conseguem controlar bem os sintomas com alterações na dieta (como a redução de FODMAPs), gestão do stress, exercício físico e, quando indicado, medicação prescrita pelo médico. O objetivo é alcançar períodos prolongados de remissão e melhorar a qualidade de vida.
Qual é o melhor medicamento de venda livre para a SII?
Não existe um medicamento de venda livre adequado a todos os casos, pois os sintomas variam. Para a obstipação podem ser usados laxantes suaves (como psílio ou fibras); para a diarreia, a loperamida pode ajudar, mas exige precaução. Consulte sempre um profissional de saúde antes de iniciar qualquer medicação, pois alguns tratamentos podem agravar determinados subtipos de SII.
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Sim. É comum que as análises ao sangue e a calprotectina fecal sejam normais em pessoas com SII, porque se trata de um distúrbio funcional que não causa inflamação ou lesões detetáveis por estes exames. O diagnóstico baseia-se nos sintomas e nos critérios de Roma IV.
Quando devo considerar fazer um teste de microbioma?
Um teste de microbioma pode ser considerado quando, após uma avaliação médica completa que excluiu outras condições, os sintomas persistem e a causa permanece pouco clara. Não substitui o diagnóstico médico, mas pode ajudar a orientar a abordagem nutricional de forma personalizada.
Conclusão
O diagnóstico da SII em Portugal segue um processo estruturado, tendo os critérios de Roma IV como padrão-ouro. A combinação de história clínica, Escala de Bristol, exclusão de sinais de alarme e exames direcionados permite um diagnóstico mais preciso. Chegar à consulta informado ajuda a participar ativamente no processo: se apresenta sintomas compatíveis, marque consulta com o seu médico de família ou gastrenterologista.
Conteúdo informativo baseado nas recomendações atuais da Rome Foundation e de sociedades de gastrenterologia. Não substitui a avaliação de um profissional de saúde.