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Bactérias Intestinais e Hormonas do Apetite: O Impacto na Fome

Este artigo explora a ligação fascinante entre o microbioma intestinal e as hormonas do apetite, explicando como o teu microbioma influencia a fome, a saciedade e os desejos alimentares. Analisamos a ciência por trás do eixo intestino-cérebro, o papel de hormonas-chave como a grelina e o GLP-1, e como os ácidos gordos de cadeia curta atuam como moléculas sinalizadoras. Também vais aprender estratégias práticas de dieta e estilo de vida para apoiar um microbioma intestinal saudável, melhorando a regulação do apetite e a saúde metabólica em geral.
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Se já se perguntou porque sente fome pouco depois de uma refeição ou porque certos alimentos o deixam saciado durante horas, a resposta pode estar no seu intestino. As bactérias intestinais e as hormonas do apetite formam um sistema de comunicação complexo que influencia diretamente a fome, a saciedade e o metabolismo. Neste artigo, explicamos como funciona o eixo intestino-cérebro, qual o papel da grelina, leptina, GLP-1 e PYY, e como pode apoiar a sua flora intestinal para um melhor controlo do apetite, com base na evidência científica mais recente e em recomendações práticas.

O universo invisível dentro de si: a microbiota intestinal

A microbiota intestinal é o conjunto de biliões de microrganismos - principalmente bactérias, mas também fungos e vírus - que habitam o seu trato gastrointestinal. Este ecossistema é único como uma impressão digital, influenciado pela genética, alimentação, ambiente, medicação e estilo de vida. Quando equilibrada e diversa, a microbiota desempenha funções essenciais, desde a digestão de nutrientes até à síntese de vitaminas e proteção contra agentes patogénicos.

Além destas funções clássicas, a investigação das últimas décadas revelou que a microbiota intestinal atua como um órgão endócrino virtual, produzindo e modulando moléculas que comunicam diretamente com o cérebro. Esta comunicação é particularmente relevante no contexto do apetite, onde as bactérias intestinais influenciam a produção de hormonas e sinais neurais que determinam quando, quanto e o que comemos. A relação entre microbioma e fome é, por isso, uma área de estudo intenso e promissora.

O que são as hormonas do apetite e como funcionam?

O apetite não é controlado por um único fator, mas por uma rede complexa de hormonas e neuropeptídeos que atuam no cérebro, particularmente no hipotálamo. Estas hormonas são produzidas em diferentes partes do corpo, incluindo o estômago, o pâncreas e as células intestinais, e enviam sinais de fome ou saciedade ao cérebro. Compreender cada uma delas ajuda a perceber como as bactérias intestinais podem influenciar o equilíbrio energético.

Grelina: a hormona da fome

Conhecida como a única hormona orexígena (estimulante do apetite) conhecida, a grelina é produzida principalmente no estômago e no pâncreas. Os seus níveis sobem antes das refeições e descem após comer, agindo sobre o hipotálamo para estimular a sensação de fome. Para além do seu efeito no apetite, a grelina também influencia a motilidade gástrica e a secreção de hormona do crescimento, preparando o corpo para a ingestão de alimentos.


Leptina: o sinal de saciedade a longo prazo

A leptina é produzida pelas células de gordura (adipócitos) e atua como um sinal de saciedade a longo prazo, informando o cérebro sobre as reservas de energia disponíveis. Quando os níveis de leptina são elevados, o cérebro inibe o apetite e estimula o gasto energético. Contudo, em situações de obesidade, pode ocorrer resistência à leptina, ou seja, o cérebro deixa de responder adequadamente a este sinal, perpetuando a fome apesar das reservas de gordura estarem aumentadas.

GLP-1, PYY e CCK: os reguladores da saciedade pós-refeição

O GLP-1 (péptido semelhante ao glucagon tipo 1) e o PYY (péptido YY) são hormonas incretinas produzidas pelas células L do intestino delgado e grosso em resposta à ingestão de nutrientes. Ambas promovem a sensação de saciedade, retardam o esvaziamento gástrico e reduzem a ingestão alimentar. O GLP-1 também estimula a secreção de insulina, regulando os níveis de glicose. Já a colecistoquinina (CCK) é libertada no intestino delgado em resposta à presença de gordura e proteína, atuando no cérebro para sinalizar o término da refeição e controlar o tamanho das porções.

O eixo intestino-cérebro: a linha direta entre bactérias e cérebro

A comunicação entre o intestino e o cérebro é bidirecional e essencial para a homeostase energética. Este eixo envolve múltiplas vias, incluindo o sistema nervoso, o sistema endócrino e o sistema imunitário, e as bactérias intestinais são intervenientes ativos neste diálogo constante, influenciando a forma como o cérebro interpreta os sinais de fome e saciedade.

O nervo vago: o caminho neuronal principal

O nervo vago é a via de comunicação neuronal mais direta entre o intestino e o cérebro. As bactérias intestinais podem ativar terminações nervosas no intestino, que enviam sinais elétricos ao tronco cerebral e ao hipotálamo. Este circuito rápido permite que o cérebro receba informações sobre o conteúdo intestinal em tempo real, influenciando a saciedade precoce e o prazer da refeição. A interrupção desta sinalização vagal está associada a alterações no comportamento alimentar em modelos animais.

Sinalização química: metabolitos microbianos na corrente sanguínea

Para além da via neuronal, as bactérias intestinais produzem metabolitos que entram na corrente sanguínea e podem atravessar a barreira hematoencefálica. Entre estes, destacam-se os ácidos gordos de cadeia curta (AGCC), as vitaminas do complexo B e os aminoácidos derivados do triptofano. Estes compostos podem atuar diretamente no cérebro, modulando a atividade de neurónios envolvidos no controlo do apetite e no humor, influenciando indiretamente a escolha alimentar.

O papel do sistema imunitário e da inflamação

O sistema imunitário intestinal está em constante interação com a microbiota, e esta interação influencia o equilíbrio entre inflamação e tolerância imunológica. Em situações de disbiose e aumento da permeabilidade intestinal, pode ocorrer uma inflamação sistémica de baixo grau, com produção de citocinas inflamatórias. Esta inflamação pode afetar o hipotálamo e interferir com a sinalização da leptina e da insulina, contribuindo para a resistência hormonal e para a desregulação do apetite.

O hipotálamo: o centro de comando do apetite

Integrando todos estes sinais periféricos, o hipotálamo funciona como o centro de comando central do apetite. Dentro do hipotálamo, núcleos específicos como o núcleo arqueado contêm neurónios que expressam neuropeptídeos orexígenos (como o NPY e o AgRP) ou anorexígenos (como a POMC e a CART). As bactérias intestinais, através das vias neuronal, hormonal e imunitária, modulam a atividade destes neurónios, determinando em última instância a decisão de iniciar ou terminar uma refeição.

Como as bactérias intestinais influenciam as hormonas do apetite

O impacto das bactérias intestinais no apetite é mediado por mecanismos diretos e indiretos que afetam a produção, libertação e função das hormonas do apetite. Esta influência começa ao nível da mucosa intestinal, onde as bactérias interagem com as células enteroendócrinas, responsáveis pela secreção de GLP-1, PYY e CCK.

Produção e regulação hormonal pelas bactérias

Certas estirpes bacterianas têm a capacidade de modular a expressão de genes nas células enteroendócrinas, aumentando ou diminuindo a produção de hormonas da saciedade. Por exemplo, a fermentação de fibra dietética por bactérias produtoras de AGCC estimula diretamente as células L intestinais a libertar GLP-1 e PYY. Além disso, componentes da parede celular bacteriana, como o lipopolissacarídeo (LPS), podem interagir com recetores do sistema imunitário intestinal, influenciando indiretamente a função hormonal.

O papel do triptofano e da serotonina

O triptofano é um aminoácido essencial e precursor da serotonina, um neurotransmissor amplamente conhecido pelo seu papel no humor, mas também crucial na regulação da motilidade intestinal e da saciedade. As bactérias intestinais influenciam o metabolismo do triptofano, competindo pela sua utilização e produzindo metabolitos como o indol e o ácido indolpropiónico. Uma microbiota equilibrada assegura uma produção adequada de serotonina, que atua tanto ao nível do sistema nervoso entérico como do cérebro, modulando a sensação de fome e bem-estar. Estima-se que cerca de 90% da serotonina do organismo seja produzida no intestino.

GABA e outros neurotransmissores microbianos

Algumas estirpes bacterianas, incluindo certas espécies de Lactobacillus e Bifidobacterium, têm a capacidade de produzir ácido gama-aminobutírico (GABA), o principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central. Embora a quantidade de GABA produzida no intestino tenha um impacto sistémico limitado, evidências emergentes sugerem que a modulação do eixo intestino-cérebro por estas bactérias pode influenciar a resposta ao stress e a ansiedade, fatores que estão intimamente ligados ao comportamento alimentar e ao controlo do apetite.

Hafnia alvei e a proteína ClpB: um caso específico de regulação da saciedade

Um caso notável na investigação do microbioma e fome é o da bactéria Hafnia alvei, que produz uma proteína denominada ClpB. Esta proteína tem uma estrutura tridimensional semelhante à da alfa-melanotropina (α-MSH), uma hormona anorexígena endógena envolvida na regulação da saciedade. Estudos clínicos preliminares demonstraram que a administração de Hafnia alvei pode estimular a produção de anticorpos que mimetizam a ação da α-MSH, promovendo a sensação de saciedade e reduzindo a ingestão alimentar em indivíduos com excesso de peso. Esta linha de investigação, embora promissora, ainda está em fase inicial e requer mais estudos independentes.

Ácidos gordos de cadeia curta (AGCC): os mensageiros metabólicos

Os AGCC são os metabolitos mais estudados na interação entre dieta, microbiota e metabolismo. Produzidos pela fermentação anaeróbia de fibras alimentares e amido resistente no cólon, servem como principal fonte de energia para as células do cólon e atuam como moléculas sinalizadoras em todo o organismo, ligando diretamente a alimentação, as bactérias intestinais e o apetite.

Acetato, propionato e butirato: como são produzidos

Os três principais AGCC - acetato, propionato e butirato - são produzidos em proporções diferentes, dependendo do tipo de substrato fermentado e da composição da microbiota. O butirato é crucial para a saúde das células epiteliais do cólon, o propionato é preferencialmente captado pelo fígado onde influencia a gluconeogénese, e o acetato é o AGCC mais abundante e pode ser utilizado como substrato lipogénico. A produção destes ácidos gordos voláteis é um dos principais benefícios de uma dieta rica em fibra.

Mecanismos de ação: recetores FFAR2 e FFAR3

Os AGCC exercem os seus efeitos biológicos principalmente através da ativação de recetores acoplados à proteína G, designados FFAR2 (GPR43) e FFAR3 (GPR41). Estes recetores estão expressos nas células enteroendócrinas L intestinais, bem como em adipócitos, células imunitárias e neurónios do sistema nervoso entérico. A ativação destes recetores por AGCC desencadeia cascatas de sinalização intracelular que resultam na secreção de hormonas da saciedade e na regulação da inflamação.

Efeito dos AGCC na libertação de GLP-1, PYY e leptina

A ativação dos recetores FFAR2 e FFAR3 pelas AGCC estimula diretamente as células L a libertar GLP-1 e PYY, potenciando a saciedade pós-prandial. Além disso, os AGCC influenciam a produção de leptina nos adipócitos. O propionato, em particular, tem demonstrado em alguns estudos estimular a libertação de PYY e reduzir a ingestão alimentar em humanos. Este efeito combinado na libertação de hormonas anorexígenas posiciona os AGCC como mediadores centrais da comunicação entre uma dieta rica em fibra e o controlo do peso.

Impacto na sensibilidade à insulina e no metabolismo energético

Para além dos efeitos diretos no apetite, os AGCC melhoram a sensibilidade à insulina e modulam o metabolismo energético. O butirato e o propionato têm sido associados à redução da resistência à insulina e à melhoria da função das células beta-pancreáticas. Ao promoverem uma melhor utilização da glicose e dos ácidos gordos pelos tecidos, os AGCC contribuem para uma homeostase energética mais eficiente, reduzindo o risco de obesidade e diabetes tipo 2. Estes efeitos metabólicos positivos reforçam a importância de uma alimentação que favoreça a produção de AGCC pela microbiota.

Disbiose: quando o desequilíbrio bacteriano perturba o apetite

A disbiose é definida como um desequilíbrio na composição e função da microbiota intestinal, caracterizado por uma perda de diversidade microbiana e por alterações na abundância relativa de determinados filos, géneros ou espécies bacterianas. Este estado de desequilíbrio, que pode resultar de dietas pobres em fibra, uso de antibióticos, stress crónico ou outros fatores, está cada vez mais associado a uma vasta gama de condições metabólicas e inflamatórias.

No contexto do apetite, a disbiose pode promover a fome através de múltiplos mecanismos. Por exemplo, uma redução das bactérias produtoras de butirato e propionato pode diminuir a produção de GLP-1 e PYY, reduzindo a sensação de saciedade. Simultaneamente, o aumento da permeabilidade intestinal associado à disbiose pode permitir a passagem de endotoxinas microbianas para a circulação, desencadeando uma inflamação de baixo grau que interfere com a sinalização da leptina e da insulina no hipotálamo.

É importante sublinhar que a associação entre disbiose, obesidade e resistência à insulina é complexa e ainda não totalmente compreendida. Grande parte da evidência provém de estudos em modelos animais ou de estudos observacionais em humanos, que não conseguem estabelecer uma relação causal clara. As diferenças individuais na genética, na dieta basal, na função imunológica e no estilo de vida são fatores de confundimento significativos que limitam a generalização destes resultados.

Estratégias práticas para equilibrar a flora intestinal e controlar o apetite

Embora não exista uma solução universal, a evidência científica sugere que determinadas escolhas alimentares e de estilo de vida podem promover um microbiota mais saudável e diversa, contribuindo potencialmente para um melhor controlo do apetite e da saciedade. Estas estratégias devem ser implementadas de forma gradual e personalizada, respeitando a tolerância individual.

O poder da fibra alimentar: o combustível das boas bactérias

A fibra alimentar é o substrato preferencial para a fermentação bacteriana e a produção de AGCC. Aumentar a ingestão de alimentos ricos em fibra é a forma mais eficaz de nutrir a microbiota. Fontes particularmente benéficas incluem a inulina (presente na raiz de chicória e alho), os fruto-oligossacarídeos (FOS) (presentes na cebola e banana) e o amido resistente (presente em batatas cozidas e arrefecidas, leguminosas e aveia). Um aumento gradual da ingestão de fibra é recomendado para minimizar sintomas como distensão abdominal e flatulência.

A importância da diversidade microbiana e dos alimentos fermentados

Uma microbiota diversa é geralmente considerada um marcador de saúde intestinal. Para promover esta diversidade, é recomendável consumir uma ampla variedade de alimentos vegetais, incluindo frutas, vegetais, grãos integrais, frutos secos e sementes. Os alimentos fermentados, como iogurte natural, kefir, chucrute e kombucha, podem introduzir microrganismos benéficos no intestino, embora a sua capacidade de colonização permanente seja limitada e os seus efeitos variem amplamente entre indivíduos.

Probióticos para o apetite: o que diz a evidência e como escolher

Os probióticos são microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem um benefício à saúde do hospedeiro. A evidência sobre o efeito dos probióticos no apetite e no peso é mista e depende fortemente da estirpe utilizada. Algumas estirpes de Lactobacillus, Bifidobacterium e Saccharomyces têm demonstrado efeitos modestos na saciedade ou na perda de peso em ensaios clínicos, mas não existe um probiótico universalmente eficaz para todos. Escolher um probiótico com estirpes especificamente estudadas para o objetivo pretendido e com uma matriz adequada é crucial.

Fatores de estilo de vida: sono, stress e atividade física

O estilo de vida tem um impacto profundo na microbiota intestinal e no apetite. A privação de sono está associada a alterações nos níveis de grelina e leptina, aumentando a fome e o desejo por alimentos calóricos. O stress crónico, mediado pelo cortisol, pode induzir alterações na composição da microbiota e aumentar a ingestão alimentar emocional. A atividade física regular, por sua vez, promove uma maior diversidade microbiana e melhora a sensibilidade à insulina, contribuindo para uma melhor regulação do apetite.

Variabilidade individual e o valor educativo dos testes de microbioma

Reconhecendo a enorme variabilidade individual na composição da microbiota, surge a necessidade de ferramentas que permitam compreender melhor o nosso próprio ecossistema intestinal. Os testes de microbioma analisam a composição e a diversidade das bactérias presentes nas fezes, oferecendo uma visão geral do estado da flora intestinal e do seu potencial funcional. Estes testes podem ser úteis numa perspetiva educativa, ao identificarem padrões de diversidade e possíveis carências de determinados grupos bacterianos, permitindo uma abordagem nutricional mais personalizada para apoiar as bactérias intestinais e o controlo do apetite.

Limitações e perspetiva: o que os sintomas e os testes realmente dizem

É fundamental reconhecer que sintomas como fome persistente, desejos por açúcar, distensão abdominal ou fadiga são inespecíficos e podem ter múltiplas causas. Estas manifestações não provam, por si só, a existência de uma disbiose ou de um problema hormonal. Fatores como a dieta, o stress, a medicação, a qualidade do sono e condições médicas subjacentes interagem de forma complexa, sendo impossível atribuir uma causa única baseada em sintomas subjetivos.

Relativamente aos testes de microbioma, é crucial entender o que eles medem e o que não medem. Uma análise taxonómica identifica quais os microrganismos presentes e a sua abundância relativa, mas não mede diretamente a produção de metabolitos como os AGCC, a menos que exista uma análise funcional ou uma medição direta de metabolitos fecais incluída no teste. Além disso, uma amostra de fezes é apenas um instantâneo do intestino, que pode ser influenciado pela dieta recente, medicação, doença e manuseamento da amostra. Os resultados devem ser interpretados no contexto clínico mais amplo e não constituem um diagnóstico médico de qualquer condição.

Perguntas Frequentes

Que hormona ajuda a regular o apetite?

Várias hormonas trabalham em conjunto para regular o apetite. A grelina estimula a fome, enquanto a leptina, o GLP-1, o PYY e a CCK promovem a saciedade. O equilíbrio entre estas hormonas é essencial para um controlo adequado da ingestão alimentar e do peso, influenciado por fatores como a alimentação, o sono e o stress.

Como posso repor as hormonas e o intestino naturalmente?

Adotar uma dieta rica em fibra vegetal, consumir alimentos fermentados, dormir adequadamente, gerir o stress e praticar atividade física regular são as principais formas de apoiar a saúde intestinal e, consequentemente, o equilíbrio hormonal. É importante fazer alterações graduais e sustentáveis, prestando atenção à resposta individual do seu corpo.

Uma má flora intestinal pode aumentar a fome?

Uma microbiota desequilibrada (disbiose) pode estar associada a um aumento da fome. Isto pode ocorrer devido à redução da produção de hormonas da saciedade (GLP-1, PYY), ao aumento da inflamação que afeta a sinalização da leptina, e à influência de metabolitos bacterianos no cérebro. No entanto, é uma área de investigação em curso e com grande variabilidade individual.

O desequilíbrio das bactérias intestinais afeta as hormonas?

Sim, o desequilíbrio das bactérias intestinais pode afetar a produção e a função das hormonas do apetite. A disbiose pode reduzir a capacidade do intestino de produzir GLP-1 e PYY, aumentar a permeabilidade intestinal conduzindo a inflamação, e interferir com a sinalização da leptina e da insulina, promovendo a resistência hormonal e dificuldades no controlo do apetite.

Os probióticos aumentam o apetite?

Os efeitos dos probióticos no apetite são específicos de cada estirpe e variam entre indivíduos. Enquanto alguns estudos mostraram redução da fome e da ingestão alimentar com certas estirpes (como Hafnia alvei), outros não observaram efeitos significativos. Não existe evidência robusta que indique que os probióticos aumentem o apetite de forma consistente, mas a resposta individual pode variar.

O que é o eixo intestino-cérebro e como afeta a fome?

O eixo intestino-cérebro é um sistema de comunicação bidirecional entre o sistema nervoso entérico e o sistema nervoso central, envolvendo o nervo vago, o sistema imunitário e metabolitos bacterianos. As bactérias intestinais produzem sinais que viajam até ao cérebro, modulando os centros do apetite e influenciando a nossa sensação de fome e saciedade, bem como as preferências alimentares.

Como controlam os ácidos gordos de cadeia curta o apetite?

Os AGCC são produzidos pela fermentação de fibra. Ao ligarem-se aos recetores FFAR2 e FFAR3 nas células L intestinais, estimulam a libertação de GLP-1 e PYY, hormonas que promovem a saciedade. Além disso, os AGCC podem atuar no fígado e no cérebro, melhorando a sensibilidade à insulina e influenciando os sinais centrais de fome.

O que é a disbiose intestinal?

A disbiose caracteriza-se por um desequilíbrio na composição e na diversidade da microbiota intestinal, com uma perda de microrganismos benéficos e um crescimento potencial de outros menos benéficos. Este estado está associado a condições como obesidade, diabetes, doenças inflamatórias intestinais e pode afetar a regulação hormonal do apetite e do metabolismo.

A resistência à leptina pode ser causada por problemas intestinais?

A resistência à leptina está intimamente ligada a estados de inflamação crónica de baixo grau, que podem ser exacerbados pela disbiose intestinal. A translocação de endotoxinas bacterianas para a circulação, facilitada por uma barreira intestinal permeável, ativa o sistema imunitário e promove inflamação no hipotálamo, interferindo com a sinalização da leptina e dificultando a perceção de saciedade.

Qual é o papel da fibra na regulação do apetite?

A fibra alimentar desempenha um papel duplo: promove a saciedade mecânica ao aumentar o volume da refeição e retardar o esvaziamento gástrico, e serve de substrato para a produção de AGCC pela microbiota, que estimulam hormonalmente a libertação de GLP-1 e PYY, reforçando a sensação de plenitude e o controlo do peso.

A inflamação intestinal afeta o controlo do apetite?

Sim, a inflamação intestinal, frequentemente associada à disbiose e a escolhas alimentares inadequadas, pode afetar o controlo do apetite. A inflamação sistémica de baixo grau interfere com a ação da leptina e da insulina no hipotálamo, promovendo resistência hormonal. Este processo pode levar a uma sensação persistente de fome, apesar das reservas energéticas estarem adequadas, perpetuando o ciclo de ganho de peso.

Principais conclusões

  • As bactérias intestinais influenciam ativamente as hormonas do apetite, incluindo grelina, leptina, GLP-1 e PYY, através do eixo intestino-cérebro.
  • Os ácidos gordos de cadeia curta (AGCC), produzidos pela fermentação de fibra, são mensageiros metabólicos centrais que promovem a saciedade.
  • A disbiose, caracterizada por um desequilíbrio da microbiota, está associada à inflamação e à desregulação do apetite, mas a causalidade não está totalmente estabelecida.
  • Uma dieta rica e variada em fibra vegetal é a estratégia mais robusta para apoiar uma microbiota saudável e a produção de AGCC.
  • Os probióticos podem ter efeitos benéficos, mas são específicos para cada estirpe e a evidência não é universalmente conclusiva.
  • Sintomas como a fome persistente têm múltiplas causas e não devem ser atribuídos apenas à microbiota sem um contexto clínico adequado.
  • Os testes de microbioma oferecem um valor educativo sobre a diversidade e composição microbiana, mas não substituem uma avaliação médica completa.
  • A gestão do apetite baseada no microbioma é promissora, mas exige uma abordagem personalizada, integrando dieta, estilo de vida e fatores individuais.

Conclusão: O futuro da gestão do apetite baseada no microbioma

A relação entre as bactérias intestinais e as hormonas do apetite é uma das fronteiras mais excitantes da medicina moderna, abrindo caminho para intervenções nutricionais e terapêuticas inovadoras. Compreender que o apetite reflete uma complexa interação entre a dieta, a microbiota, o sistema imunitário e o cérebro permite-nos adotar uma perspetiva mais holística e personalizada na gestão da fome e do peso. No futuro, terapias emergentes como o transplante de microbiota fecal e a nutrição de precisão baseada no perfil microbiano individual prometem avanços significativos, embora ainda exijam investigação rigorosa quanto à sua segurança e eficácia.

É essencial reconhecer que a ciência do microbioma, apesar do seu enorme potencial, ainda está em evolução e enfrenta limitações metodológicas. Sintomas como a fome excessiva não podem ser atribuídos a uma única causa e requerem uma abordagem clínica abrangente. Tomar decisões informadas, baseadas em evidência sólida e na orientação de profissionais de saúde qualificados, é fundamental para alcançar uma saúde metabólica duradoura e um bem-estar intestinal sustentável.

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